A biblioteca de Eco e os cinco minutos de jazz

Por Francisco Louçã

As evocações homenegeatórias a Umberto Eco destacaram o filósofo que devolveu a curiosidade à filosofia, o escritor que se divertiu com os seus romances (havia nele um Salgari que nunca escondeu e que norteou a sua busca das terras incógnitas) e o homem cívico que compreendeu que a força de Berlusconi era só a nossa fraqueza, nossa, dos cidadãos desprotegidos perante o tumulto comunicacional e a perda de identidades que a pós-moderna cosmologia impõe. A vertigem do efémero era o ódio de Eco, como se pode compreendê-lo. Eco, como, entre nós, Eduardo Lourenço ou João Martins Pereira, ou Augusto Abelaira, ou Urbano Tavares Rodrigues, era o Montaigne de um tempo novo que ainda brande a modernidade contra o culto do flash, da cosmética e do pronto-a-vestir que dá conforto às transumâncias ideológicas.

Por isso mesmo, a biblioteca era a sua vida. Mas não qualquer biblioteca. Sem labirintos, como a do Nome da Rosa, embora talvez com esconderijos, porque os há sempre, uma biblioteca pessoal não deve ter mais de trinta mil livros, dizia Eco para si mesmo. É muito livro, não sei se ele os pensava poder ler todos, mais os que lá não estão e passam por nós. Na verdade, ler esses livros não é a medida de um bibliotecário, é simplesmente viver com eles, com o gosto da novidade, com o espírito do coleccionador, com o fascínio das ideias escondidas: quando lemos um bom livro nunca terminamos de o ler.

À sua maneira, José Duarte é também um bibliotecário de sons, um coleccionador de jazz, e que tem também um limite, embora o desafie sempre e já lá vão cinquenta anos, e com que graça e enlevo ele cuida dos seus sons, ninguém saberá contar o que lhe devemos. Começou ainda Salazar era vivo e lutava-se nas colónias, o Vietname era uma certeza para Washington e ninguém tinha ouvido falar de Pinochet, a Checoslováquia ainda não tinha sido ocupada. Continuou pelos anos fora, como se o som dele fosse o eco bom do que se ia passando no mundo. E não era? Quando ouvimos uma boa música nunca terminamos de a ouvir.

Os “5 minutos” foram de tudo e disseram quase tudo. Mas não se pode ouvir tudo, mesmo que os arranjos que o “5 minutos de jazz” vai pondo no ar sejam como esses livros que adoramos, que tocamos e que lemos porque sabem mais do que nós. São eles que estão à nossa espera e que nos levam pela mão.

A biblioteca e o jazz são duas das respirações da vida. A vida é bela.

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