O que fizeste à tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?

ANTÓNIO LOBO ANTUNES na VISÃO: 14.01.2016 às 9h30
Nenhum de nós falava nunca, nunca lhe vi um sorriso, indiferente a mim tal como ele me era indiferente e só tornava a vê-lo um ou dois dias depois, sentado no bacio, a brincar sozinho. A mim chamavam-me Tóino, a ele chamavam-lhe Tóino, porque o desenho da boca da minha tia igual, e nem essa coincidência me surpreendia
Ilustração: Susa Monteiro
Em pequeno, com dois ou três anos, sentavam-me num bacio, diante de um espelho de guarda-fatos, com alguns brinquedos em torno, e eu ficava sozinho, horas esquecidas, com um menino loiro, também sentado num bacio, do outro lado do espelho. Claro que não o reconhecia como sendo eu e não me lembro
(eu que me lembro de tudo)
de me espantar que os brinquedos dele fossem idênticos aos meus. Nunca discuti-mos, nunca nos zangámos. Cada um tinha as suas coisas, não partilhávamos nada, uma das minhas tias aparecia dos dois lados do espelho, limpava ao mesmo tempo o rabo a ambos, puxava a minha mão do lado de cá, puxava a mão do menino loiro do lado de lá e afastávamo-nos um do outro, sem um gesto de adeus, até ao dia seguinte ou até ali a dois dias. Nenhum de nós falava nunca, nunca lhe vi um sorriso, indiferente a mim tal como ele me era indiferente e só tornava a vê-lo um ou dois dias depois, sentado no bacio, a brincar sozinho. A mim chamavam-me Tóino, a ele chamavam-lhe Tóino, porque o desenho da boca da minha tia igual, e nem essa coincidência me surpreendia. Lembro-me da minha tia, a meu respeito
– Ficava ali horas esquecidas ou seja
ficávamos ambos ali horas esquecidas, separados pelo vidro do guarda-fatos e, tal-vez, por um espesso muro invisível, espécie de fronteira que nos tornava habitantes não de países sem relação entre si, mas de mundos que se desconheciam apesar de idênticos. Reparando melhor dava-me conta que eu canhoto e ele dextro, o meu bacio tinha a asa para um lado e o dele para o lado oposto, a minha tia vinha de uma banda aqui e da banda oposta no compartimento onde ele estava, diferenças subtis mas evidentes com um bocadinho de atenção. Qual o meu país, qual o seu? Muitos anos depois li a pergunta de um filósofo
– O que fizeste à tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?
e foi então que o garoto loiro me reapareceu de uma maneira perturbante: o que será feito dele? Onde mora? Como? Será não a minha irmã gémea mas o meu irmão gémeo que abandonei, não ao nascer, aos dois ou três anos? O que faz ele agora? E, no meio disto, confusamente, tive saudades daquele menino, cheguei a pensar
– Qual deles sou eu?
que agora uso a mão direita e portanto, se calhar, sou o do outro lado do guarda-fatos. Serei? É que, durante meses, não tive uma companhia tão próxima como a sua. Era calado como eu, mas dentro de si, como dentro de mim, ferviam coisas, perguntas sem resposta, respostas sem pergunta, provavelmente o mesmo medo do escuro, das cobras, do homem do saco, a preferência pelos mesmos brinquedos, a mesma estranheza em relação à vida, o mesmo prazer da solidão. Eu gostava de brincar sozinho, ele gostava de brincar sozinho, se calhar, como acontecia comigo, também dava nomes aos objetos inanimados que se perfilavam em torno e na minha ideia possuíam uma vida própria, respondiam-me, conversavam, mesas, cadeiras, quadros, o que fosse, tudo aquilo com uma maneira de ser que a minha família não tinha e da qual me sentia muito mais próximo do que das pessoas. Até os degraus tinham voz, as portas, os tapetes, tudo morava numa realidade quase íntima, tudo me compreendia melhor do que os crescidos que me obrigavam a comer
(eu não gostava de comer)
a ir para a cama
(não gostava de ir para a cama)
a levantar-me (não gostava de sair da cama depois de deitado) a lavar os dentes, a submeter-me ao horrível suplício do corte das unhas, do corte do cabelo, de vestir roupa que picava, de ser beijado por criaturas enormes, de bocas enormes prontas a devorarem-me, deixando-me a bochecha molhada que eu secava furiosamente na manga, e me olhavam com sorrisos ternos iguaizinhos a línguas que davam ideia de me lamberem e a que procurava escapar voltando-me de costas. Lambiam-me, preparavam-se para me engolir e eu fugia torcendo-me. O mundo era demasiado esquisito, complicadíssimo e, por exemplo, dizerem-me
– Gosto de ti
possuía um significado que me escapava. Perguntavam-me
– Gostas de mim?
e como, se eu respondesse que sim, talvez ganhasse qualquer coisa sobretudo se a pergunta viesse acompanhada de uma mão fechada, o que significava que um rebuçado lá dentro, dizia
– Gosto
desembrulhava o rebuçado, enfiava-o na boca e deixavam-me em paz. O que fizeste à tua irmã gémea que abandonaste ao nascer ou o que fizeste ao teu irmão gémeo que abandonaste ao nascer? Desde que li a frase que ela não me larga, anda constantemente comigo. E aí o miúdo loiro regressa. Às vezes pergunta
– Porque demoraste tanto tempo a chegar?
outras fita-me apenas, fazendo-me sentir horrivelmente culpado. Pela minha vida, pela sua e dentro de mim a sensação de o haver traído. Deixado sozinho. Paro em todos os guarda-fatos, todos é exagero, mas paro diante de guardafatos de espelho e não o encontro. Mesmo encostando o nariz ao vidro, e espreitando para um lado e para o outro não o encontro. Só o encontro olhando a minha imagem. Fico sério a observá-la e a pouco e pouco o miúdo loiro regressa. Digo-lhe
– Sou eu
Fico à espera que ele me responda
– Só agora?
continuo a fitá-lo, ele fita-me também e acompanhados um pelo outro principiamos a caminhar na direção de nós mesmos.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s