Uma história portuguesa

 

Público: 11/05/2013 – 00:00

Nunca desde o começo desta democracia os políticos portugueses tentaram descobrir como Portugal se “desenvolveu” na segunda metade do século XIX. Talvez calculassem a razão por que não se desenvolveu na primeira metade: invasões, golpes do exército, duas guerras civis e uma agitação política constante. Mas depois da Regeneração cai o silêncio e não por acaso. Quase de repente vieram estradas, pontes, comboios, correios, polícia, uma administração pública e um sistema de justiça, que cobriam uma boa parte do território e funcionavam com alguma regularidade. Em 1855, o cidadão comum ainda se queixava da enorme aventura que era apanhar um comboio para o Carregado. Em 1875, andar de comboio não impressionava ninguém e a facilidade de transportes serviu para comercializar uma agricultura que, tirando uma ou outra excepção, sufocava nos mercados locais.

Mas como se arranjou dinheiro para esta transformação, que os sábios da altura declaravam deletéria e fantasiosa? Muito simplesmente: contraindo uma enorme dívida soberana, que aumentava de ano em ano com benemérito propósito de sustentar, como se dizia, a “marcha do progresso”, de que nem no Parlamento, nem na maioria dos jornais se discutia o método e as condições. Por isso, evidentemente, os partidos “rotativos” (o “bloco central” da época) se habitualmente se descompunham por trivialidades, não se distinguiam no governo. E, como não se distinguiam, criaram uma fama, aliás merecida, de promotores da vigarice e da corrupção que pouco a pouco tomavam conta do país.

Quando em 1891-92 chegou a catástrofe que toda a gente há trinta anos previa, a Monarquia abanou e até ao fim não seria capaz de voltar à estabilidade do passado. A festa não durara muito tempo. Menos de quarenta anos, da “Regeneração” à bancarrota. Só que, nessa altura, existia um partido revolucionário (como o PC já não é; e o Bloco só retoricamente foi) e esse partido, o Partido Republicano, acabou por conseguir liquidar a Monarquia e, no mesmo dia, estabelecer a República. A dívida soberana e a dívida dos particulares continuaram; e Portugal caiu numa pobreza que só quem viveu antes de 1950 pode imaginar. O que espanta é que nenhum partido e nenhum governo tenham aprendido nada com esta história cautelar e que tenham repetido exactamente com a “modernização” a melancólica aventura da “marcha do progresso”. Se a história, em princípio, não permite comparações, não quer isso dizer que a memória não faça falta.

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