A “Europa” nunca existiu

VASCO PULIDO VALENTE

Público – 22/03/2013 – 00:00

A questão de Chipre excitou a opinião pública portuguesa, sobretudo a opinião de certos comentaristas. Mas curiosamente ninguém chegou ou quis chegar ao fundo do problema, ou seja, à inexistência real e comprovada da União Europeia. A ideia de impor uma taxa universal aos depósitos de Chipre não veio do Governo do sítio, veio da União Europeia e foi aprovada pelos 17 países do euro, incluindo Portugal, por vontade expressa da Alemanha. Havia outros motivos para tomar essa medida drástica ou, em rigor, qualquer coisa semelhante: a predominância do sector financeiro, o uso da banca para as manobras mais do que suspeitas da oligarquia russa (que lá pusera uma parte importante do seu dinheiro) e, desde Fevereiro, uma incipiente corrida da pequena poupança para levantar a tempo o que era dela. Mas nada disso explica a brutalidade da Alemanha e a abjecta subserviência da União.

Só que, perante o facto consumado, o Parlamento de Chipre votou por unanimidade contra a taxa bancária e o ministro das Finanças resolveu imediatamente ir a Moscovo com o objectivo declarado de arranjar um empréstimo em condições mais razoáveis do que as do ultimato da Alemanha. A Rússia tem interesses mais do que evidentes na região. Com Chipre ficaria com uma posição estratégica no Médio Oriente, em que nem árabes, nem turcos, nem americanos e, já agora, também a “Europa” a querem ver. Ficaria com um dedo (um grande dedo) nos depósitos de gás que recentemente se descobriram à volta da ilha. Tornaria a ser uma força nos países do petróleo. E chegaria finalmente à sua velha ambição de estabelecer uma base naval de “água quente” no Mediterrâneo.

Perante esta perspectiva, a União não mexeu uma palha. Começou por fazer o que a sra. Merkel lhe mandava e, a seguir, criticou e lamentou como é próprio da impotência. Não há um exército “europeu”, como não há uma política externa europeia ou uma direcção económica centralizada. Os países que apoiam a Alemanha nas discussões da extravagante burocracia da União agradecem os subsídios, mas jamais se mexerão por ela. E, assim, a sra. Merkel acabou reduzida a exibir a sua fúria, que diverte o mundo, sem o impressionar. Se a América estivesse envolvida na história, não passaria pela cabeça de Putin intervir. Sucede que a América de Obama foge de sarilhos, não os procura. E que a “Europa”, apesar da propaganda em contrário, de facto não existe. Nunca existiu.

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