Sinais de morte

Opinião

Vasco Pulido Valente – 06-11-2011

Os militantes do Bloco, já na meia-idade e sem a frescura que ao princípio os tornava suportáveis na televisão, lembram agora invariavelmente frades velhos, que repetem uma verdade em que já não acreditam ou que resolveram ignorar o baixo mundo em que nós, para nossa desgraça, ainda não deixámos de viver. A ladainha é sempre a mesma: a troika e o Governo querem arrasar a economia portuguesa, como arrasaram a da Grécia e submeter à mansidão os trabalhadores pelo desemprego e pela miséria com o único objectivo de satisfazer os mercados. O Bloco, pelo contrário, e quem navega com ele, quer o crescimento e a dignificação do trabalho, um anseio virtuoso, que o país compreende e que, tarde ou cedo, o salvará. Dos meios desta obra não fala o Bloco e, quando fala, melhor seria que não falasse.

Segunda-feira na televisão, Louçã acusou com voz trémula Passos Coelho por ele ter anunciado o inevitável “empobrecimento” de Portugal e não ter dito nada na campanha sobre essa intenção maléfica e secreta. Ora, como Louçã sabe, de Passos Coelho ao Presidente da República, ao grosso do PSD e do CDS, e mesmo a uma larga franja de costume neutral e desinteressada, toda a gente disse, e continua a dizer, que Portugal gasta mais do que produz e vive muito acima do que razoavelmente pode. Imagina Louçã – ao que parece um economista – que este exercício empobrece ou enriquece? Não lhe interessa. O que lhe interessa é o escândalo pelo escândalo: agitar a entidade metafísica dos mercados, como dantes se agitava a presença palpável do Diabo; ou denunciar a existência dum PREC da Direita, que não passa de uma figura de retórica; e esperar que o brilho da sua virtude faça o resto.

O resto ou quase tudo o resto. Porque o Bloco e o sumo da esquerda bem pensante também contam com um milagre de fora. Uns recomendam, prometem ou profetizam a famigerada “saída” do euro, sem perceber que essa “saída” destruiria rapidamente a classe média e poria a pão e água a maioria dos portugueses. Outros lamentam que a Alemanha e o BCE não se ponham por aí a imprimir dinheiro e provoquem uma inflação descomunal capaz de absorver a dívida, qualquer que ela fosse, e de caminho devastar a Europa. E outros, que se distinguem pela sua particular ingenuidade e espessura, persistem em pensar no tio do Brasil, isto é, em eurobonds generosamente concedidos, por razão nenhuma, à indigência universal. Como os sarilhos da direita, a absoluta nulidade da esquerda é um sinal de morte.

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