O “independente”

Opinião de Vasco Pulido Valente – 16-10-2011

Este Governo tem um número anormal de “independentes”, coisa que em princípio parece meritória ao cidadão comum. Mas será? Para começar, conviria saber o que é um “independente”. É um senhor (ou uma senhora) que nunca por nunca se interessou por política e menos por política partidária, e que votou sempre segundo a sua “consciência”, ou conveniência, sem se interessar se votava no PS, no PSD, no CDS ou no diabo em pessoa? Admito que haja por aí esse animal indefinido, embora não conheça nenhum. É, pelo contrário, o “independente” um cidadão desconhecido que conseguiu o milagre geométrico de ser, como se dizia, “equidistante” dos grupos e grupelhos que por aí andam? Ou é um sábio fechado num gabinete inacessível, que sabe ao certo o remédio para salvar a Pátria e está calado por humildade cristã e científica?

Em grosso, não penso que o “independente” seja nada disto, pela simples razão que não acredito na “independência” do “independente”. O “independente” costuma esvoaçar à volta à volta dos grandes grupos de interesses, dos lobbies universitários, do PSD e do PS. Verdade que não frequenta sessões de militantes, nem se candidata a cargos que o possam pôr em evidência pública. Prefere o género “encontro”, “simpósio”, “seminário” ou conferência, onde se roça com assiduidade pela gente importante e, principalmente, pela gente séria e onde com o tempo (com pouco tempo) começa ele próprio a adquirir sem excessivo esforço a sua reputação de importante e sério. Não incomoda ninguém, não provoca ninguém, quase não se nota e é útil para encher uma cadeira ou fazer uma pergunta.

Mas não se imagina que o “independente” escolhe ao acaso, como um pássaro tonto, os meios por onde circula e as relações que laboriosamente angaria. Sabe perfeitamente para onde sopra o vento: onde poisa o PS e onde poisa o PSD. Quem tende a “subir” e quem tende a “descer” e, portanto, para usar o termo pornográfico corrente, em quem deve “apostar”. Depois de uma eleição ou de uma remodelação, muitas vezes até ganha. Serve para tapar um “buraco”, para afastar um apoiante incómodo, para resolver com mansidão e “neutralidade” uma querela entre dois “caciques”. A televisão e os jornais declaram o “independente” uma “cara fresca” e ele entra esfusiante pelo Estado dentro na completa ignorância do que sejam a administração e a sociedade portuguesa. Para naturalmente fugir dali a uns meses como um sendeiro triste, à procura de um novo dono.

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