Vamos desaparecer?

Opinião de Vasco Pulido Valente – 14-10-2011

O dr. António Barreto, com a autoridade da sua barba profética e da sua castidade política, disse que Portugal poderia não vir a ser um país numa Europa diferente e, presumivelmente, reformada. Isto enervou algumas pessoas que se enervam com tudo e mesmo o sr. Pinto da Costa do FC do Porto apareceu na televisão pálido e tremente de terror. Não sei, palavra a palavra, com a exactidão devida, o que o dr. Barreto achou por bem comunicar à pátria. Nem percebi com toda a clareza onde ele queria chegar. Mas percebo, pelo menos, que não percebi nada. Há três possibilidades. Ou o dr. António Barreto se estava a referir a Portugal como nação, ou seja, como entidade cultural, e, nesse caso, não tem razão. Ou se estava a referir a Portugal como Estado soberano, e, nesse caso, desde o século XVII que não tem razão. Ou se estava a referir à autonomia económica de Portugal, e, nesse caso, nunca teve razão.
Na primeira hipótese, é óbvio que dez milhões de portugueses, com uma língua única, uma literatura erudita, uma religião maioritária (e pacificamente aceite), uma história comum, um império de que restam respeitáveis vestígios (como, por exemplo, Angola e Brasil) e sem qualquer diferença étnica notável – é uma nação. Nenhuma outra unidade política nos quereria absorver. Seríamos sempre uma fonte de conflitos, pior do que os flamengos na Bélgica e muito pior do que os bascos ou os catalães em Espanha. A nossa separação sólida e formal (não escrevi: independência) garante a tranquilidade dos vizinhos. As nossas desordens domésticas devem ficar rigorosamente domésticas.

Na segunda hipótese – a do Estado soberano -, não subsiste a menor dúvida de que, desde o princípio do século XIX a meados do século XX, Portugal foi um protectorado inglês, que poucas vezes se distinguia de uma colónia. Nesse sentido, não existíamos. Ou nos portávamos bem ou a Inglaterra mandava cá uma esquadra fazer ameaças ou contratava um exército espanhol para nos aplicar um correctivo ardente. Com a queda do Império Britânico, Salazar e Caetano ainda conseguiram uma estreita e efémera liberdade, que lhes serviu para a guerra colonial sem sentido. Depois, chegaram as vergonhas do PREC e da Europa.

Na terceira hipótese – a da autonomia económica -, basta olhar para a nossa atávica dependência do défice e da dívida, que, excepto na indigência sub-humana da ditadura, nos trouxe invariavelmente às misérias de hoje.

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