Falta de imaginação

Vasco Pulido Valente – 05-06-2011

Toda a gente se queixa que nem o CDS, nem o PS, nem o PSD tiveram o escrúpulo, ou coragem, de falar sobre o memorando de entendimento que assinaram com a Europa e o FMI para arranjar dinheiro. De certa maneira, não tiveram a culpa. A imaginação não é uma qualidade comum e, pior ainda, a imaginação histórica é quase nula no político médio. Basta, por exemplo, pensar no episódio, que separou para sempre o mundo antigo do mundo moderno: a I Guerra Mundial. Nem a Alemanha, nem a França, nem a Áustria, nem sequer a Rússia alguma vez pensaram que um pequeno assassinato em Sarajevo viesse a produzir a catástrofe que produziu. Durante muito tempo, e mesmo quando as coisas claramente se agravaram, as grandes potências presumiram que tudo acabaria numa escaramuça local. A tragédia chegou quase por acaso.

E ninguém tinha a noção de que tragédia seria. No “Diário” do embaixador de Portugal em Paris, prevalece um único sentimento: o espanto. Não o medo, não o horror, não o desespero: o espanto. A artilharia e a metralhadora tinham afinal transformado a guerra como a faziam Napoleão ou Bismarck. O que se passava não podia simplesmente acontecer. Milhões de soldados que marchavam pelo continente inteiro, nações que desapareciam em menos de uma semana, 200.000 mortos nos primeiros três meses eram uma aberração inconcebível, literalmente inconcebível. Como depois foi o fuzilamento de reféns, o bombardeamento aéreo, o gás mostarda, a fome geral e por aí fora.

A civilização a que o homem chegara não excluía esta espécie de barbaridades? Como se viu, não excluía. E não excluía a Espanha moderna e “progressiva” de 1936 uma guerra civil de quase quatro anos? Milhares de espanhóis supuseram que sim e em Julho, como de costume, mandaram a mulher e os filhos para a praia ou para a montanha. Muitas vezes, não os tornaram a ver. E agora nós? Será admissível que o Portugal próspero e contente de Cavaco e Guterres, que organizava a “Expo” e o “Europeu”, caia em quatro ou cinco anos numa aflitiva miséria? Que se percam hoje a segurança e os privilégios de anteontem? Admissível é. E, mais do que admissível, fatal. Mas quem suporta olhar para essa realidade que se aproxima e quem se atreve a falar dela? Nem os partidos, nem os portugueses.

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