Desculpas, desmentidos e explicações

Por Vasco Pulido Valente

A tragédia do PSD nas sondagens não devia espantar ninguém. Claro que, como o maior partido da oposição, era de esperar que o PSD recolhesse agora os benefícios do governo de Sócrates, que deixou o país na pior crise desde o princípio do século XIX. E as pessoas que não se lembram da história da seita não percebem o que se passa com os portugueses para ainda hoje se dividirem entre quem indiscutivelmente os levou ao fundo e o pobre Passos Coelho, que nunca fez mal a uma mosca e está cheio, coitadinho, de boa vontade. Mas Sócrates (como, aliás, Paulo Portas) parece um primeiro-ministro e Passos Coelho um bom estudante, um pouco gaffeur, num exame difícil. Com a mania nacional da autoridade, não custa a perceber quem impressiona a populaça.

O problema começou com Cavaco. Cavaco, segundo ele próprio um dia declarou, não tinha ministros, tinha “ajudantes”: gente que lhe obedecia e que ele no fundo desprezava. Não deixou, assim, um grupo dirigente com algum prestígio pessoal e alguma influência no PSD. Não deixou sequer uma facção com um pensamento político definido (ou qualquer coisa que se aproximasse disso), que se pudesse pouco a pouco impor e crescer. Com uma ou outra ocasional excepção, só subsistiram nulidades, sem uma ideia ou um princípio na cabeça, e essas nulidades, naturalmente, abriram entre si uma guerra civil: a que o país foi assistindo, primeiro com pena e depois com nojo, enquanto Cavaco se preparava para o dia em que haveria de subir ao assento etéreo de Belém.

Pior do que isso: com a fuga de Barroso e o pequeno circo de Santana, o PSD acabou por se tornar numa escola de intriga. Quando chegou, Passos Coelho levava atrás de si o dito Santana, Marques Mendes, Menezes, Manuela Ferreira Leite e um enorme saco de ressentimento e raiva, irreconciliável com a mais leve racionalidade. Sem uma organização eficiente e fiel que o servisse e rodeado por “amigos” de interesse ou de acaso, engoliu com facilidade os “salvadores da pátria” da universidade e dos “negócios” e avançou à toa contra o exército fanático e disciplinado de Sócrates. Pagou, e continua a pagar, muito caro. As pessoas não gostam de amadores (principalmente a mandar nelas). Gostam de profissionais como os CDS e os PS. Os votos não se ganham com desculpas, desmentidos e explicações.

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