O truque

Por Vasco Pulido Valente

A grande perplexidade, o grande drama do que por aí se chama “política portuguesa” é o “empate técnico” do PS e do PSD nas sondagens. A União Europeia e o FMI pediram um apoio geral para o seu “resgate” e o Presidente da República declarou que em circunstância alguma daria posse a um novo governo minoritário. Ora o “empate técnico”, como nos lembram constantemente os comentadores de televisão, divide o “centrão” a meio e não permite nem uma coisa nem outra. Vamos nós viver nesta cruel angústia até ao dia 5 de Junho? Vamos mesmo conseguir viver depois de 5 de Junho? Portugal, coitado, já não se aguenta. Tanto mais que Passos Coelho e Sócrates trocaram de papel e com essa inesperada mudança agitaram o coração e o espírito de muito boa alma.

Sócrates resolveu agora abrir o seu acolhedor e terno seio a qualquer partido, seja ele qual for, que não o rejeite e se disponha a salvar a pátria. O lobo mau é agora um bichinho doméstico que apetece pegar ao colo. Passos Coelho, pelo contrário, que parecia um rapaz simpático e cordato, quer agora tudo para ele e não gosta rigorosamente de ninguém. Ora, com este estranho caso de feitiçaria, não há de facto maneira de salvar a pátria. Os poderes deste mundo incitam os nativos a viver em amor e concórdia. Mas no último minuto salta sempre um soba com um batuque e uma algazarra e a irreprimível ambição de mandar na tribo inteira. Não há nada a fazer, senão chorar. E chorar não chega.

Mas talvez o caso não mereça tanta aflição. Pedro Passos Coelho acordou um dia com a populaça do PSD à volta, muito indignada porque as sondagens desciam sem respeito ou vergonha. E Pedro Passos Coelho teve uma ideia. Como o CDS é pequeno, se ele anunciasse que nunca mais falaria com o PS, a direita em peso e a multidão de portugueses que detesta Sócrates votavam com certeza nele. Afinal, para ganhar a maioria absoluta bastava um truque e o PSD, especialista em truques, ficava deleitado. Não ocorreu a Passos Coelho que o país não ficasse e perdesse um pouco mais de confiança nele. Enxotar o eleitorado para a maioria absoluta é um exercício pouco sério e uma pretensão grotesca. As cabecinhas que engendraram esta linda estratégia deviam pensar nisso. Num intervalo lúcido.

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