Bin Laden

Opinião de Vasco Pulido Valente

A destruição do World Trade Center em 2001 foi suficientemente traumática para levar um país – de resto, maior potência mundial – que nunca tinha sido atacado dentro das suas fronteiras a uma aventura de política externa sem objectivos claros, nem um fim à vista. Verdade que, por essa altura, o Presidente era George W. Bush e que não se podia esperar dele grande racionalidade. Mas, de qualquer maneira, a América invadiu o Afeganistão (um exercício até agora falhado) e a seguir o Iraque, que, depois de muitos milhares de mortos, continua um problema por resolver, sem paz política, sem um exército “nacional” e sem um governo com autoridade. Por cálculo ou acaso, Osama bin Laden conseguiu atrair o Ocidente (e a única força que o sustentava e sustenta) a um beco sem saída.

Quando esta semana foi morto, a América (ou, se quiserem, a NATO) continuava longe de estabelecer a mais vaga ordem no Afeganistão e a guerra sob formas larvares já se estendera ao Paquistão, que tem uma enorme influência regional, um conflito perene com a Índia e armas nucleares. Como toda a gente com certeza compreendeu, o facto de Osama bin Laden viver desde pelo menos 2005 a 60 quilómetros de Islamabad, numa casa murada e defendida por arame farpado e, ainda por cima, perto de uma base de militar, implica uma enorme rede de cumplicidades locais: de uma boa parte do Estado, dos serviços secretos, de uma facção do Exército e mesmo da própria da população. A América paga biliões pelos bons serviços do Paquistão; e o Paquistão, recebendo os biliões, vai tratando tranquilamente dos seus interesses.

O terrorismo original, o anarquismo da “propaganda pelo acto”, não passava de um sinal de fraqueza e da recusa de aceitar uma direcção socialista ou republicana para o “proletariado”. Excepto em Espanha, quase não matou ninguém e, como por razões de princípio, nunca se tornou uma organização de massa, nunca também ameaçou a sério o poder constituído (de direita ou de esquerda). Só que deitar uma bomba num café de Paris por volta de 1880, ou dar uns tiros de euforia ou aviso na Barcelona de 1937 não equivale a explodir aviões de passageiros contra as Twin Towers. Ou, por exemplo, usar uma “bomba suja” para arrasar um cidade “inimiga”. Bin Laden levou a América a uma estratégia sem sentido no mundo islâmico e estendeu uma permanente insegurança sobre o Ocidente. Não é o momento de o dar por pessoalmente irrelevante, como por aí fazem certos sábios comentadores.

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