Solidariedade?

Por Vasco Pulido Valente

Muita gente, grande e pequena, se queixa hoje da falta de “solidariedade” da “Europa” perante os sarilhos de Portugal. Vale, por isso, a pena repetir, pela enésima vez, que nunca houve “solidariedade” na “Europa”, como quiseram acreditar, e ainda acreditam, alguns beatos de Bruxelas. Ao princípio, existia a necessidade que a França tinha do carvão da Alemanha (sem o qual não conseguiria sobreviver) e a necessidade que a Alemanha, nascida do nazismo pela influência do Ocidente, tinha de um “visto democrático” para a comunidade internacional. Apesar da retórica, não era um acordo visionário. E continuou a não ser, quando se agregaram ao entendimento de origem os países tradicionalmente próximos da França (a Bélgica e o Luxemburgo) e da Alemanha (a Holanda, por exemplo) e também a Itália, coitada, metida quase à força no mesmo cesto por causa do “perigo comunista” e da pressão de Washington.
O cimento dessa “Europa” foi sempre a América. Primeiro, porque a promoveu; segundo, porque a defendeu. Do ponto de vista da América, a “guerra fria” impunha a criação, ou, se quiserem, a “construção, de uma “Europa” pacífica e unida e, se possível, próspera, que servisse de barreira ao imperialismo de Leste, coisa, na altura, credível e real. E, à sombra desta estratégia, para que ela não contribuíra, a “Europa” lá se começou a solidificar e a crescer, protegida pelo “chapéu-de-chuva” da NATO, que ela de resto não pagava. Nada disto implicava uma especial solidariedade entre as partes contratantes, excepto alguma moderada militância contra o inimigo comum. E nada disto justificava também o fervor utópico dos políticos da era Delors e da respectiva burocracia.
Como se constatou a partir de 1989. Para começar, tanto a França como a Inglaterra se esforçaram por impedir a reunificação da Alemanha. E, pouco depois, com o colapso da URSS, a América perdeu o seu velho interesse pela “Europa”. O “alargamento”, um acto de puro oportunismo, que a propaganda democrática tornara inevitável, não entusiasmou ninguém do lado de cá. Mas diluiu a escassa identidade que a União durante trinta anos ganhara; e, para grande fúria do dr. Soares, permitiu que a Alemanha retomasse publicamente a proeminência que era de facto a sua. Hoje a “solidariedade” é uma fantasia. Os países ricos desprezam o nosso desleixo. E Portugal não perde um segundo com as pequenas tiranias que vão reaparecendo a leste, como a da Hungria. A comédia acabou ou, pelo menos, já não dura muito.

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