O triunfo da asneira

Por Vasco Pulido Valente

Depois do congresso de Matosinhos, Manuel Carrilho disse, e repetiu por escrito, que o primeiro-ministro era um “candidato eficaz”, mas, desgraçadamente, um “governante medíocre”. Há aqui um equívoco. Se Sócrates não fosse um candidato eficaz, nunca seria um governante, medíocre ou esplêndido. A primeira obrigação dele é ganhar e Sócrates conseguiu até agora ganhar. Por habilidade dele? Com certeza. A semana passada conseguiu unir o PS, inventar uma história justificativa para a campanha eleitoral e pôr em pé de guerra um partido que se estava a desfazer. Só que teve ajuda, e uma enorme ajuda, do outro lado: o PSD de Passos Coelho. Contra todo o senso e toda a razão, Passos Coelho deixou seguir a banda do PS e mesmo, muito simpaticamente, ajudou à festa com meia dúzia de asneiras desnecessárias.
Começou por omitir que falara com Sócrates na véspera, ou antevéspera, da apresentação do PEC IV. Não se vê qualquer motivo para esta manobra pueril, excepto o de convencer os portugueses a não acreditar nele e transferir o centro da polémica política para um assunto sem importância, quando Sócrates precisava de uma lição rápida e ardente pela horrível demagogia que não pára de nos servir. De qualquer maneira, parece que em matéria de inépcia Passos não ficou contente. Em duas semanas, resolveu oferecer um lugar no Parlamento às grandes “notabilidades” do partido. Convidou António Capucho, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite e Luís Filipe Menezes. Os quatro lhe responderam que não. Pior: todos lhe responderam publicamente que não. A unidade do partido morria antes de nascer.
Era o cúmulo? Não. Faltava ainda Fernando Nobre. Ninguém se lembra e ninguém na altura percebeu as deambulações do homem – de Barroso para Capucho e de Capucho para o Bloco (ou exactamente ao contrário; não segui a viagem). O certo é que a páginas tantas Nobre se candidatou a Belém e, no meio da confusão da esquerda, ganhou meio milhão de votos, com uma propaganda populista e antipolítica. Isto bastou para entusiasmar Passos Coelho, que pediu ao venerável vulto para encabeçar a lista de Lisboa do PSD e, no tempo próprio, presidir à Assembleia da República. Não vale a pena explicar que Fernando Nobre não trará mais do que uns milhares de votos ao PSD e que, nesta operação, Passos Coelho alimentou e reforçou o desprezo que os portugueses já sentem pelo regime (e pelo PSD). Sócrates talvez seja um “candidato eficaz”. Passos provavelmente não chegará a governante, medíocre ou não.

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