Danos colaterais

por ANTÓNIO VITORINO

Há momentos na vida das empresas e das famílias onde a vertiginosa sucessão de acontecimentos infaustos aconselha a que todos parem para pensar… antes de agravarem mais a situação do colectivo.

Os países não são excepção.

Pressente-se entre nós que estamos num ponto de viragem decisivo. A recordação dos anos 80 projecta-se como uma sombra, não apenas sobre o nosso presente mas também sobre o nosso futuro.

As pessoas sentem-se inseguras e inquietas, sobretudo porque intuem que alguns dados de partida da situação do País e da sua própria vida individual que consideravam como estáveis ou adquiridos virão, a curto prazo, a ser postos em causa.

Enquanto toda a extensão das mudanças não for devidamente conhecida, esse sentimento de inquietação pode facilmente degenerar num hiperactivismo que nos projecta para declarações, afirmações e posturas de que mais tarde nos poderemos todos vir a arrepender, a lamentar e até a pagar um preço desnecessário.

Basta ler a imprensa internacional dos últimos dias para ficarmos com a sensação amarga do tom depreciativo com que Portugal é retratado. Se se tratasse apenas da imagem comunicacional do País, sempre poderíamos encontrar uma explicação na vertigem sensacionalista ou na atracção que as grandes parangonas têm por quem está em situação precária ou difícil.

Quando o tom azedo, crítico e até censório chega ao nível de responsáveis políticos de outros países ou de instituições europeias, convém que nos perguntemos, em primeiro lugar, em que medida é que essas atitudes são alimentadas pela nossa própria conduta.

Com efeito, a imagem de um país nos centros internacionais faz parte integrante da sua capacidade de decisão própria, de agir e de influenciar as decisões de outros que lhe digam respeito. Construir uma imagem internacional, junto de parceiros e de aliados, leva anos, sobretudo para os países de pequena e média dimensão, como é o nosso caso. Destruí-la pode ser um caso de escassos dias ou semanas.

Manifestamente, a forma como tem decorrido o nosso debate interno sobre as condições de recurso ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira constitui um (infeliz) exemplo de como, por culpa própria, podemos agravar uma situação já de si muito difícil.

Desde meados de Março que eram claros os sinais dos nossos parceiros europeus de que tinham dificuldade em compreender como é que, estando Portugal debaixo da pressão dos mercados financeiros, tinha sido desencadeada uma crise política que acelerou essa pressão e nos colocou na necessidade de pedir apoio externo. A cacofonia das várias instituições políticas nacionais e a insensibilidade do debate político interno ao que significa a negociação das condições de acesso a essa assistência financeira levaram alguns dos nossos interlocutores à beira da exasperação. As fantasias de miraculosas “soluções intercalares” ou de financiamento em troca de compromissos vagos desgarrados de um efectivo programa de ajustamento da economia portuguesa podem aparecer aos olhos de quem trava a luta política interna como geniais golpes de translação da culpa e de eventuais ganhos eleitorais, mas para os nossos frios interlocutores aparecem como expedientes dilatórios e causa de desconfiança quanto à firme intenção de introduzir as correcções de rumo necessárias ao acesso aos apoios externos de que necessitamos.

Neste momento, em que mais precisávamos de uma frente comum para encontrar as soluções que minimizem os impactos negativos que se avizinham, damos uma imagem de divisão e de ausência de sentido das responsabilidades que só poderá agravar a posição do nosso país.

Ou será que além dos custos directos que todos iremos pagar ainda pretendemos que o País no seu todo se qualifique como dano colateral?

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