Jovens arriscam-se no lado obscuro da Net

“Nunca falar com estranhos”

Diana Mendes e Sónia Correia dos Santos*
André Carrilho

Na era da Internet de comunidade, há jovens que não passam um dia sem irem ao Hi5 ou ao MySpace. Grande parte utiliza os sites como ferramenta de comunicação. Mas há uma minoria desses jovens que, à porta fechada, troca imagens de pornografia infantil; outros despem-se para uma webcam, sem saber que do outro lado está um adulto. No último ano, a Polícia Judiciária (PJ) contou 30 queixas relacionadas com conteúdos pedófilos, 30% das quais envolvendo adolescentes entre os 15 e os 18 anos. Três casos diziam respeito a menores de 15 anos.

Os benefícios do YouTube, Messenger, MySpace ou Hi5 pareciam suplantar os perigos até ao dia em que quatro adolescentes norte-americanas se queixaram de assédio sexual por parte de indivíduos que conheceram no MySpace. As queixas deram seguimento a um processo por fraude e negligência contra a plataforma da empresa NewsCorp, detida por Rupert Murdoch.

Álvaro Tomé, inspector da PJ na Secção Central de Investigação de Criminalidade de Alta Tecnologia (SCICAT), diz que, em Portugal, “até agora não houve casos de assédio ou de abuso sexual, mas esse é o maior risco dos sites“. As queixas relacionadas com plataformas como o Hi5 têm sido frequentes, especialmente nos últimos seis meses. Muitos processos envolvem divulgação de imagens íntimas de outras pessoas, pela Net e com recurso ao telemóvel, e, “de há um ano para cá, têm surgido muitas situações de adolescentes que divulgam vídeos de pedofilia”.

A facilidade na troca de dados, vídeos e fotos “tem motivado casos de adolescentes que se despem para indivíduos maiores de idade. Algumas crianças têm menos de dez anos e acabam por se despir para outros através de câmaras. Um dos casos até foi através do Messenger”.

A situação é geralmente denunciada pelos pais, “que tomam conhecimento da situação quando apanham os filhos” em flagrante. Apesar de não ter números concretos, Álvaro Tomé assegura que são menos de dez os casos denunciados que envolvem a exposição de menores de 16 anos.

Na opinião do investigador, a Internet não é totalmente segura. “A solução pode passar pela educação na escola e em casa. Os pais deviam tentar saber o que os filhos estão a ver no quarto. Deviam criar um perfil e tentar ver quem são os seus amigos e as suas actividades, tentando não entrar na sua privacidade de forma abusiva.” Todos os pais ensinam às crianças, desde a mais tenra idade, que “nunca se deve falar com estranhos”, o que para Gustavo Cardoso, professor de Ciências e Tecnologias de Informação no ISCTE, é uma regra básica do relacionamento social que também deve ser aplicada à utilização da Net. Tendo em conta este princípio, é fundamental para os jovens “aprenderem a proteger-se e a compreender o espaço em que circulam”. A maioria dos utilizadores tem essa capacidade, “mas há excepções”.

A grande questão prende-se com o que está disponível online – como as fotografias e os vídeos -, “o que revela uma mudança nos conceitos de reserva e pudor, que estão a influenciar toda a sociedade”, observa o investigador.

Luís Silveira, presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), considera que os novos meios de comunicação, como a Internet e os telemóveis com SMS, são “uma ferramenta fantástica, mas trouxeram novos riscos, em particular para os jovens, os seus principais utilizadores”. Por isso, sustenta, “é fundamental esclarecer” os mais novos sobre os perigos que correm. “Muitas vezes não se sabe muito bem com quem estão a comunicar. Podem pensar que estão a falar com alguém da mesma idade e, na realidade, tratar-se de uma pessoa mais velha, possivelmente com más intenções.”

Para reduzir os perigos, diz, basta seguir algumas regras elementares: “dar pouca informação sobre si próprio e sobre os seus familiares, tentar sempre saber com quem se está a falar e, em caso de dúvida, falar com os pais ou até com o nosso serviço de apoio”. Leonor, de 11 anos, está consciente das ameaças. Não vai ao Hi5, mas utiliza o Messenger e o YouTube. “Acho que são sites seguros”, afirmou. Em tempos, “visitava um chat, mas nunca dei o meu nome verdadeiro ou o meu e-mail“.

O alerta da comissão vai chegar às escolas: amanhã, Dia Europeu da Protecção de Dados, celebra um protocolo com o Ministério da Educação, tendo em vista a introdução do tema na disciplina de Educação Cívica.

* Com Pedro Sousa Tavares (Diário de Notícias, 28-1-2007)

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