O mundo de Natascha

Natascha cresceu em 5 m2. Nesse espaço havia um mundo e não só uma masmorra. O carcereiro era toda a humanidade.

Natascha Kampusch tinha 10 anos quando foi raptada, a caminho da escola, por Wolfgang Priklopil, técnico de comunicações de 36 anos. Oito anos depois reapareceu. Segundo disse, aproveitou um momento de distracção do raptor para fugir. A jovem austríaca esteve sequestrada num cubículo, sob uma garagem, do qual só saiu esporadicamente para cumprir tarefas domésticas. Natascha não relatou abusos sexuais e rejeita o papel de vítima. Considera a cela a sua casa e afirma que era “tão forte” como o carcereiro, cujo suicídio lamenta e ao qual agradece tê-la poupado a más companhias e vícios nocivos.A propósito deste caso, tem-se falado com insistência em ‘Síndroma de Estocolmo’. Por vezes, as vítimas de sequestros desenvolvem, como estratégia de defesa e sobrevivência, sentimentos de empatia com os criminosos. Passam a compartilhar de forma genuína o seu ponto de vista, as suas preocupações e até as suas causas. O primeiro caso estudado ocorreu em 1973, na capital da Suécia, quando quatro pessoas sequestradas durante seis dias, no decurso do roubo a um banco, defenderam os assaltantes após terem sido libertadas. Outro exemplo famoso é o de Patrícia Hearst, herdeira do magnate norte-americano Randolph Hearst (e neta de ‘Citizen Kane’), que, raptada em 1974 por uma organização terrorista, participou voluntariamente no assalto a um banco e veio a ser condenada por esse crime.

Todavia, o caso de Natascha parece mais complexo. Ocupou metade da vida – na fase em que se desenvolvem hábitos, sentimentos e mecanismos de socialização – a descer o seu ‘mystic river’. O pai chorou, perante as câmaras, antecipando o encontro com a filha que desaparecera “na véspera”. Mas a “véspera” do pai, separada do presente por uma infindável noite de sofrimento, correspondeu a oito anos na vida da adolescente. Tal como sucede naqueles exemplos com que se explica a teoria da relatividade, foi como se o pai tivesse viajado a uma velocidade constante próxima da velocidade da luz e o tempo para ele tivesse parado. Quando soube que ainda não chegara o momento do reencontro, perguntou atónito: porquê?

O espaço de Natascha também era diferente, como se vivesse em menos dimensões. Recorrendo de novo à Física, surge aquela ideia de universo finito mas ilimitado. A adolescente cresceu em 5 m2. Nesse espaço havia um mundo e não só uma masmorra. O carcereiro (pai, amante, mestre e amo?) era toda a humanidade. Natascha diz que não foi feliz, mas aspira a regressar à prisão e recusa-se a viver com os pais. Talvez não baste falar em ‘Síndroma de Estocolmo’. Por que não chamar-lhe ‘Síndroma de Viena’?

Rui Pereira, Professor de Direito e presidente do OSCOT

Correio da Manhã

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