UM PRESENTE DO CÉU

Por VASCO PULIDO VALENTE, no Público de hoje

A propósito dos 60 anos de Clinton, este jornal resolveu comemorar a geração dos baby boomers. Em Portugal, porque não houve guerra também demograficamente não houve baby boomers. Mas não deixou de aparecer uma geração, a “geração de 60”, a minha, que entre a “crise académica” de 62, de boa memória, e a “festa de Abril”, de má memória, fez de Portugal um país diferente.
Só quem se lembra do Portugal do respeitinho, de que falava O”Neill, o Portugal engravatado, temeroso e servil de Salazar, e o compara ao Portugal democrático (não ao do PREC) ou mesmo ao Portugal da agonia de Marcelo, pode imaginar essa revolução (a única e a verdadeira) e o extraordinário alívio e alegria que veio com ela. Para quem tinha vinte anos foi um presente do Céu, que nunca mais se repetiu.
As coisas não chegaram de repente. A greve (ou o “luto”, como lhe chamavam) de 62 na universidade, O Tempo e o Modo, o Zip-Zip, o Em Órbita, 69 em Coimbra, a CEUD e a CDE e a descoberta de um Algarve pristino e desabitado eram sinais de um advento. Como a emigração voluntária ou involuntária, para trabalhar, desertar ou estudar (com a inevitável bolsa da Gulbenkian).
Mas mais do que isso, antes disso, no fundo disso, a pílula mudou tudo. A “geração de 60” inventou o sexo. Num mundo de hard-core não se consegue provavelmente explicar, nem sequer invocar, o peso, a culpa, o mistério do sexo e como o sexo estreitava, torcia e coibia a vida da adolescência à morte. Se um novo homem alguma vez nasceu, nasceu nessa altura. E principalmente uma nova mulher.
Não existiam regras para esse território ignorado e ambíguo; e o que sucedeu nem sempre se distingue do egoísmo, da loucura e do caos. De qualquer maneira, ficou a liberdade e um irrenunciável sentimento de soberania pessoal. O que não é pouco. Infelizmente, e como lhe competia, a revolta romântica da “geração de 60” trazia consigo um radicalismo acéfalo, que do culto de Guevara à ressurreição do marxismo, se aplicou a incensar a tirania e o terror. A sua herança intelectual e política não se recomenda. Este paradoxo, nada original, obscurece a glória de um renascimento que varreu os restos do universo opressivo, inigualitário e rígido do século XIX. Hoje, a “geração de 60” não tem boa fama. Paciência. Assim com assim, não a trocava por outra.

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